Especial mês da Mulher: “A gente está no caminho certo, mostrando que somos profissionais e capazes”, afirma a comandante Carolina

Com 10 anos de experiência como piloto na aviação comercial e mais de 15 anos de carreira, a gaúcha se destaca com competência e profissionalismo na cabine do avião

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A comandante da Azul, Carolina Damé, é um dos exemplos que lugar de mulher é onde ela quiser. Com 10 anos de experiência como piloto na aviação comercial e mais de 15 anos de carreira, a gaúcha se destaca com competência e profissionalismo na cabine do avião. 

Em comemoração ao mês da mulher, a comandante e associada ao Sindicato Nacional dos Aeronautas falou com o Portal FENTAC/CUT e abordou sobre a profissão, o começo, as dificuldades e como a mulher é encarada neste ambiente que ainda é predominantemente masculino. Confira os principais trechos:

FENTAC: Quando surgiu o desejo de você ser piloto? E quando você começou na aviação?

Carolina Damé: Eu comecei na aviação no ano 2000, no Aeroclub Santa Cruz, no Rio Grande do Sul. Foi de uma hora para outra, conheci um copiloto na Vasp que me contou um pouco sobre a profissão e me interessei, até então eu tinha outros planos para a minha vida e não tinha nada haver com a aviação, ao contrário de todo mundo que tem essa motivação desde pequeno, ou tem o pai na aviação, alguém da família, eu não tive isso.

FENTAC: Sua família te apoiou?

Carolina: Busquei um curso de piloto, apesar de não ter tido nenhuma contrariedade da família eu também não tive aquele grande apoio (rs). Aí eu terminei o curso e fiquei sabendo que tinha essa faculdade de Ciências Aeronáuticas e era uma coisa que me interessava muito, profissionalizar a minha carreira, aí quando eu terminei o meu curso de piloto privado eu pedi para meus pais para fazer essa faculdade e assim, eles foram um pouco contra, mas depois me apoiaram na minha escolha.

Acho que o medo dos meus pais era de eu não me colocar no mercado, um pouco de medo por eu ser mulher e por causa também da crise.

FENTAC: O começo foi muito difícil? Como estava o mercado?

Carolina: Fui para Porto Alegre em 2001  fazer a faculdade. Era uma época muito difícil, eu fiz o curso e a Transbrasil tinha fechado, a Varig já não estava mais contratando há muito tempo, a Vasp também estava naquela situação de quebra.

Quando eu terminei a faculdade, tinha conhecido os instrutores do AeroClub de Canela (RS) e eles me convidaram para trabalhar lá. Na época, era pra trabalhar dando instruções teóricas, organizando fichas, porque era um Aeroclub pequeno, o pessoal que tinha lá estava saindo, mas como eu não tinha nenhuma previsão de voar, eu fui.

FENTAC: Você começou a trabalhar interna no Aeroclub?

Carolina: Isso, eu dava aula de instrução teórica, metodologia e regulamento. Como estava tudo parado, quem estava no Aeroclub, na época, também não saia, porque não tinha emprego na aviação comercial.

Então eu fiquei lá um tempo e era muita gente no aeroclub aguardando para trabalhar. Nesse meio tempo conheci um Comandante que na época ele era um dos diretores da Gol, que me ajudou um monte, me abraçou como filha e eu consegui emprego em dois  taxis aéreo em Boa Vista (RS).

Depois eu consegui um emprego na EJ (Escola de Aeronáutica Civil), em Itápolis, interior paulista. Trabalhei lá durante um ano e meio, fiz os cursos que a escola oferecia. Quando sai,  tinha completado todas as horas e pré-requisitos. Consegui um emprego na Gol e fiquei de 2006 a 2010.

FENTAC: E você já entrou como comandante?

Carolina: Não. Eu entrei como copiloto e fiz entorno de 1.200 horas.

FENTAC: Depois dessa experiência na Gol, você entrou na Azul em 2010, já foi como comandante?

Carolina: Não. Eu entrei na Azul como copiloto e voei entorno de 1 ano até sair comandante. Tinham os pré-requisitos para cumprir que na época eram 3.000 horas de voo. Sai como comandante em julho de 2011.

FENTAC: E quando você entrou na aviação comercial, você sofreu algum preconceito?

Carolina: Quando eu entrei tinha muito comandante antigo. Eu acho que eles se assustavam um pouco de ter uma mulher na cabine, mas não por preconceito, era uma novidade para eles.

Porque na cabeça deles, quando eu tinha voado lá na Gol as mulheres das famílias deles tinham outras profissões, digamos que mais femininas. Eles perguntavam por que tu escolheu essa profissão? o que te levou?, mas não como preconceito, acho que mais por curiosidade. A gente fala que não existe um ambiente masculino e feminino, mas não deixa de ser ainda um espaço que tem muito homem.

Temos que ser iguais aos homens na aviação e melhores também, porque se a gente for mal em um simulador, der qualquer tipo de bobeira,ficaremos muito em evidência que os homens.

FENTAC: Qual a sua mensagem para as mulheres que sonham em ser piloto?

Carolina: Eu estou de licença-maternidade, mas mesmo em casa eu ouço muito falar de colegas  que reprovaram, que foram demitidas como se isso fosse uma coisa que acontece só por elas são mulheres. Muitos homens também reprovaram, são demitidos, pelos mesmos motivos, mas nós que ficamos mais em evidência. Então eu sempre digo para as gurias, para nunca desistir, se superar e estudar, porque infelizmente, ainda existe essa diferença entre homens e mulheres.

FENTAC: Infelizmente, ainda vivemos numa sociedade muito machista. Pra você, qual a importância da luta das mulheres por seus direitos?

Carolina: Eu acho que nós mulheres devemos demonstrar competência e profissionalismo. Infelizmente, a gente tem que superar os homens para poder se encaixar no mercado de trabalho, não só na aviação. As mulheres ainda ganham menos que os homens em várias áreas. Isso só não existe na aviação porque as empresas não conseguem pagar diferenciado, mas em várias áreas uma profissional ganha 30% a 40% menos que o homem.

Mas acho que a  gente está no caminho certo, mostrando profissionalismo, que nós somos capazes , acredito que uma hora que isso vai mudar.

FENTAC: E sobre o Sindicato, você participa?

Carolina: Bom, eu sou completamente grata a esses meninos que são os meus colegas. O que eles estão fazendo hoje não é só sindicalizar os profissionais da aviação, eles estão nos recolocando na luta, fazendo com que a gente saia para lutar pelos nossos direitos e isso é muito importante.

Nada seria possível sem a ajuda e sem a disponibilidade de tempo deles, que eu sei que é bem complicado, porque eles perdem família, perdem tempo. E esses resultados que nós temos tido nos últimos anos como melhorias nos nossos direitos é fruto da total competência desse time. Nossa categoria hoje está muito mais forte.

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